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O Movimento Hare Krishna no Brasil por Lúcio Valera

Em frente a Teatro Municipal de São Paulo em 1980 
No início da década de 1970, surgia no Brasil um novo movimento religioso que chamou a atenção tanto da juventude insatisfeita com a sociedade materialista, como dos buscadores de alternativas prenunciadas nos meios esotéricos e contra culturais. Tratava-se do Movimento Hare Krishna (ISKCON), que, segundo Silas Guerriero,
“(...) até hoje permanece como a mais sólida instituição religiosa de cunho orientalista não vinculada a grupos étnicos. Se nos primeiros momentos aparecia como possibilidade de uma vivência exótica de uma espiritualidade oriental, hoje compõe o cenário religioso brasileiro mais amplo disputando espaço com outras denominações. Esta transformação fez com que a ISKCON se adaptasse ao modo de ser ocidental e também contribuísse com seus traços culturais para a composição do quadro cultural religioso da sociedade brasileira” (Guerriero 2001, p. 44).
O que é o Movimento Hare Krishna?
O Movimento Hare Krishna constitui-se de associações religiosas, denominadas Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna (ISKCON), de cunho filosófico e cultural. Juridicamente autônomas, mas religiosamente afiliadas ao Governing Body Commission (GBC) da ISKCON, com sede em Mayapur, Bengala Ocidental, na Índia.
Teologicamente falando, o Movimento Hare Krishna é uma das denominações do Hinduísmo tradicional, o Vaiṣṇavismo gauḍīya. Na forma em que conhecemos, o Vaiṣṇavismo gauḍīya foi inaugurado nos séculos XV e XVI por Sri Caitanya Mahaprabhu (1486-1534), considerado a encarnação simultânea de Śrī Rādhā e Śrī Kṛṣṇa. Sistematizaram-no seus principais discípulos: Rūpa Gosvāmī (1489-1564), Sanātana Gosvāmī (1488-1558) e Jīva Gosvāmī (1513? -1598).
Representa a última fase carismática do Vaiṣṇavismo gauḍīya o sannyāsī <1> e mestre espiritual Abhay Caran Bhaktivedanta Swami Prabhupāda (1896-1977), que chamaremos apenas de Śrīla Prabhupāda. Ele herdou o chamado para imprimir livros, que caracterizou a missão de seus antecessores imediatos, Bhativinoda Ṭhākura (1838-1914) e Bhaktisiddhānta Sarasvatī (1874-1937), bem como a energia estimulante da Gauḍīya Matha <2>, para divulgar a mensagem de Śrī Caitanya por “todas as vila e cidades” (Goswami, 1982, p. xix).
Com esse propósito em mente, e cumprindo as ordens de seu mestre espiritual, Bhaktisiddhānta Sarasvatī, Śrīla Prabhupāda deixou a Índia e veio para o Ocidente. Em, 1966, em New York (EUA), ele fundou a ISKCON, que se tornou mais conhecida como Movimento Hare Krishna (Goswami, 1980, p. 132).
Falando sobre a missão de Śrīla Prabhupāda, Kin Knott afirma que,
“Nessa capacidade Prabhupāda foi identificado por seus discípulos não apenas como um guru seguindo a mesma linhagem de Caitanya, mas como o “ācārya< 3> fundador” da ISKCON. Com relação a ambos, considera-se que ele tenha cumprido com sucesso a profecia missionária de Caitanya sobre o saṅkīrtana, glorificando a Krishna em toda vila e cidade, pelo seu próprio ministério de viagem, e inspirando os outros a fazerem o mesmo. A abertura de templos por todo o mundo, a publicação de livros em muitas línguas e as viagens de grupos de saṅkīrtana para distribuir livros e cantar em público foram todos considerados como instrumentais na realização dessa profecia” (Knott, 2001, p. 371).
Embora não fosse o primeiro mestre hinduísta a pregar no Ocidente,<4> ele foi o mais bem sucedido em proporcionar acesso à tradição do Vaiṣṇavismo gauḍīya para os não hindus. Paul H. Sherboow comenta que:
“Seus ensinamentos, contudo, mantiveram-se firmemente arraigados nos princípios e doutrinas de seus predecessores da tradição do Vaiṣṇavismo gauḍīya, especialmente aqueles transmitidos pelo seu guru, Bhaktisiddhānta Sarasvatī, e pelo pai de seu guru, Kedarnath Dutt Bhaktivinoda. Bhaktivedanta Swami traçou o curso que todos os mestres religiosos devem negociar: entre fidelidade à tradição e relevância de tempo e lugar” (Sherboow, 2004, p. 144).
Segundo Charles R. Brooks, a história do Vaiṣṇavismo gauḍīya atesta não somente as sólidas fundações estabelecidas por Śrī Caitanya e seus seguidores imediatos. Mas, também, a “habilidade da tradição em produzir periodicamente líderes inspirados, capazes de renovar e interpretar doutrina e filosofia, para exigências de novos ambientes sociais e culturais”. Para ele, a ISKCON seria bom exemplo da vitalidade integrativa da sampradāya <5> gauḍīya (Brooks, 2001, p. 335). Segundo Brooks:
“O lugar legítimo da ISKCON na sampradāya gauḍīya de Caitanya Mahaprabhu tem sido aceito pelos indianos seguidores dessa tradição, e a população hindu devota em geral têm aceitado os devotos da ISKCON como vaiṣṇavas verdadeiros. Esse fenômeno pode ser compreendido se considerarmos a vida e os ensinamentos de Caitanya, e os antecedentes históricos da ISKCON ocorridos na revitalização do Caitanismo por Bhaktivinoda Ṭhākura e seu filho, Bhaktisiddhānta Sarasvatī, o guru de Bhaktivedanta Swami, o fundador da ISKCON” (Brooks, 2001, p.365-367).
Śrīla Prabhupāda via a ISKCON como o inevitável encontro do Oriente com o Ocidente. Ilustrava isso com a analogia de que a Índia era como o aleijado, com conhecimento e visão espiritual, mas sem força para transmiti-los, e que o Ocidente era como um cego, incapaz de ver a verdade, mas pleno de recursos e força. Ele visionava a ISKCON como o encontro entre “o cego e o aleijado”, cuja cooperação recíproca possibilitaria uma “era dourada de Consciência de Krishna” para o mundo todo (Brooks, 2001, p. 358).
Chegada e primeiros anos do Movimento no Brasil
A primeira presença do Movimento Hare Krishna no Brasil não foi planejada, mas, aconteceu provavelmente em 1968. Foi quando Brahmānanda Dāsa, um dos primeiros discípulos ocidentais de Śrīla Prabhupāda, fez uma escala no Rio de Janeiro. Ele estava acompanhado de mais dois devotos, Nṛhari Dāsa e Lilasukhi Dāsa, em viagem para Buenos Aires, na Argentina. Como tiveram que permanecer por algumas horas, sentaram-se no saguão do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro e realizaram um kīrtaṇa, canto devocional congregacional do mantra Hare Krishna. Eles atraíram um pequeno grupo de pessoas, a quem Brahmānanda Dāsa falou, em seguida, sobre Consciência de Krishna.
O segundo momento foi em 1972, quando Yogesvara Dāsa e Rupānuga Gosvāmī, acompanhados de devotos e devotas, do Templo Hare Krishna de New York (EUA), vieram ao Brasil para participar de uma gincana no programa Sílvio Santos <6>, em São Paulo. Pelas ruas da capital paulista, foram levados de elefante do hotel para o estúdio, onde tocaram seus instrumentos, cantaram o mantra Hare Krishna, dançaram e falaram sobre a consciência de Krishna ao vivo, para todo o País.
Contudo, esses dois momentos da presença do Movimento da Consciência de Krishna no Brasil aparentemente não geraram devotos brasileiros. Somente no início do ano seguinte, a ISKCON começaria a fincar raízes em terras brasileiras.
Tudo começou no início de 1973, quando aqui aportou Siddhasvarūpānanda Gosvāmī. Viera para expandir o Movimento Hare Krishna no Brasil, enviado por Gaurasundara Dāsa, o responsável pela ISKCON no Hawai. Sobre esse fato, em uma carta para Govinda Dāsi, esposa de Gaurasundara Dāsa, Śrīla Prabhupāda comenta: “Estou muito feliz em saber que Gaurasundara está abrindo dois centros no Brasil. Esse é um bom trabalho”. <7>
Siddhasvarūpānanda inicialmente pregou por um breve período em São Paulo e Rio de Janeiro. Depois, ele retornou para os EUA e deixou, para continuar a sua missão, duas famílias de devotos norte-americanos, além de um brahmacari, o então Bhakta Russel (depois iniciado como Radhapati Dāsa). As duas famílias eram formadas pelo casal Brsni Dāsa e Bhaktin Janeth (depois iniciada como Līlā Sukhi Devī Dāsi), e por Dhruvānanda Dāsa, sua mulher Tulasi Devī Dāsi e seu filho Karnapura.
Brsni e Janeth permaneceram em São Paulo onde alugaram uma casa na Avenida Pirajuçara, (atual Avenida Eliseu de Almeida), número 456, no Jardim Previdência (Butantã). O casal educou nos princípios do bhakti-yoga os primeiros devotos, Lúcio (Loka Saksi Dāsa), Fernando, Cícero (Goura Gopāla Dāsa), Alemãozinho e outros, atraídos entre jovens da classe intelectual e hippies de São Paulo.
Na época, para divulgação dos ensinamentos da Consciência de Krishna, foi impresso um pequeno livreto em uma gráfica do bairro Liberdade, em São Paulo. Intitulava-se Uma amostra da Verdade Absoluta, em cuja capa azul Krishna dançava em cima da serpente Kaliya. Essa publicação trazia uma entrevista com Siddhaswarupananda explicando o básico da Consciência de Krishna. Sua distribuição, durante kirtanas e para pessoas interessadas, aconteceu pela primeira vez entre alunos da Universidade de São Paulo (USP), que ficava próximo ao templo da Avenida Pirajuçara.
No Rio de Janeiro, Bhakta Russel alugou um sobrado em Santa Tereza, na Rua Joaquim Murtinho, para ser utilizado como templo, mantido pela venda de livretos e essências indianas. Na ocasião, fizeram-se muitos devotos, a maioria deles morava em Botafogo. Augusto, Romeu, seu primo Carlos, Cabeça e Costa moravam nas imediações da Rua Voluntários da Pátria, na altura da Rua Real Grandeza. Em Humaitá, moravam Lúcia (Raga Bhumi Devī Dāsi), sua irmã Bernadete (Bhuta Mata Devī Dāsi) e Hélio Bittencourt (Vyāsa Dāsa). Marcio Pombo (Mahakala Dāsa) morava em Laranjeiras. Pedro Paulo (Paravyoma Dāsa) morava na Urca. Na época, Augusto e Romeu trabalhavam todos os domingos na Feira Hippie da Praça General Osório em Ipanema. Luiz e Erli moravam no templo e ajudavam a pagar o aluguel, junto com outros artesãos da Feira Hippie. Nesse tempo, também frequentavam o templo Júlio Cesar (Jagad Bharata Dāsa), Flávio (Virocana Dāsa), o Sr. Ormino Viegas (Viṣṇu Dāsa) e sua esposa Gertrudes (Gītā Govinda Devī Dāsi). Também havia Dionísio, ator que trabalhava na peça Hair, Ana, que exercia a função de pujari, e Maria Salustiano (Mahayogesvari Devī Dāsi) a cozinheira.
Dhruvānanda dirigiu-se para Salvador com sua família. Ele procurava uma pessoa que falasse inglês para ajudá-lo a divulgar a Consciência de Krishna. Então, por meio de uma escola de inglês, Dhruvānanda chegou à casa de um jovem estudante de Odontologia chamado Ivan Ribeiro (Dhanvantari Swami), que concordou em ajudá-lo. Este já praticava Yoga e preparava-se para fazer uma viagem à Índia. Sua ajuda foi essencial. Logo depois, um de seus amigos, Amaro Fernandes (Aradhya Dāsa) também se juntou ao grupo.
Embora seguidores de Siddhasvarūpānanda, quando de sua chegada ao Brasil, no início de 1973, os devotos que o acompanhavam vieram pregar aqui por iniciativa da ISKCON. Contudo, em meados de 1973, quando Gaurasundara Dāsa fechou o templo do Hawai, houve divergências políticas entre Siddhasvarūpānanda, seus seguidores e o corpo administrativo internacional da ISKCON – o GBC. Surgiu daí a primeira dissidência da ISKCON, que não mais aceitava a estrutura administrativa da instituição, mesmo ainda considerando Śrīla Prabhupāda como mestre espiritual. Os devotos brasileiros, na ocasião, não estavam cientes dessas questões políticas. Mas, isso ficou bem claro para eles, quando o sannyāsī canadense Hanuman Swami, que pregava na Argentina, visitou os templos de São Paulo e do Rio de Janeiro. Ele tentava resgatar o movimento de dissidência de volta para a ISKCON.
Talvez por causa dessa situação, Bṛṣṇi tenha resolvido fechar o templo de São Paulo e se mudar para o Nordeste, ficando assim incógnito da ISKCON. Ele acreditava em teorias de conspirações, segundo as quais a ISKCON pretendia acabar com eles. Portanto, todos os devotos de São Paulo foram para Salvador. De lá, após tentativa fracassada de abrir um templo em Fortaleza, Brsni, sua esposa, Fernando, Lúcio e Cicero dirigiram-se para Recife, onde finalmente alugaram uma casa em Olinda, no Bairro Novo. Na época tornaram-se devotos, George, João (Yajñi Dāsa) e Bosco (Bhamaka Dāsa), todos de Recife.
Os projetos de Olinda, Salvador e Rio de Janeiro, funcionando como dissidências não declaradas da ISKCON, se mantiveram precariamente até os meados de 1974, quando Brsni e Janeth e Dhruvānanda e família tiveram de retornar para os EUA, deixando para trás simpatizantes e adeptos sem liderança. Russel ainda permaneceu até julho ou agosto de 1974, quando fechou o templo, retornando também para os EUA.
Lúcio e Maria, com o que sobrou do templo do Rio de Janeiro, foram morar com José Claudio (Catur Murti Dāsa), no sítio de propriedade deste, situado em São José do Vale do Rio Preto (na época ainda distrito de Petrópolis). Mais tarde, esse sítio se tornaria Nova Ayodhya, a primeira comunidade rural da ISKCON no Brasil. Era o único centro Hare Krishna, onde os devotos ainda se reuniam regularmente. Nessa mesma ocasião, após a volta de Dhruvānanda aos EUA, Ivan Ribeiro e mais algumas pessoas que se interessavam pela Consciência de Krishna continuaram a realizar encontros aos domingos, em um pequeno espaço, no bairro Paripe de Salvador. A esposa de Ivan Ribeiro sugeriu então que ele escrevesse para Śrīla Prabhupāda, pedindo que mandasse algum representante para impulsionar a pregação aqui no Brasil. A carta enviada por Ivan Ribeiro foi entregue por Śrīla Prabhupāda a Hridayānanda Dāsa Gosvāmī, um dos seus discípulos mais próximos.
A resposta veio por telegrama: “Eu recebi sua carta. Estou enviando meu representante Hridayananda Dāsa Gosvāmī para orientá-los. Siga suas instruções. Seu sempre bem querente A. C. Bhaktivedanta Swami”<8>. Portanto, Hridayānanda Dāsa Gosvāmī de-sembarcou no Rio de Janeiro em dezembro de 1974 e procurou pelos devotos. Ele trazia consigo o endereço da casa de Dona Vanda, a tia de José Claudio Belfort. Mas, como não conseguiu encontrar os devotos, pois eles estavam reunidos no sítio do José Claudio, Hridayānanda Dāsa Gosvāmī seguiu para Salvador, onde se encontrou pela primeira vez com os devotos brasileiros. Ele também portava o endereço de Ivan Ribeiro, fornecido pelo irmão dele, Antônio Sergio Ribeiro (Jagad Vicitra Dāsa), que morava em Los Angeles.
Depois de alguns dias em Salvador, em companhia de Ivan Ribeiro, Hridayānanda Dāsa Gosvāmī retornou para os EUA, mais consciente da existência de vários devotos no Brasil, em especial no Rio de Janeiro. Nesse contexto, ele foi nomeado por Śrīla Prabhupāda o representante do GBC para o Brasil. Em janeiro de 1975, Hridayananda Dāsa Gosvāmī enviou Mahavira Dāsa, para entrar em contato e reunir os devotos aqui existentes e fundar o primeiro templo oficial da ISKCON no Brasil. Na verdade, segundo depoimento de Paravyoma Dāsa, o plano inicial de Hridayānanda Dāsa Gosvāmī e Mahavira Dāsa era primeiramente conseguir aqui um bom tradutor e convencê-lo a ir para Los Angeles, para traduzir os livros de Śrīla Prabhupāda. Quando parte desses livros estivesse traduzida e impressa nos EUA, então, um grupo americano de distribuidores de livros viria ao Brasil para distribuí-los. Mas, qual não foi o espanto deles, ao chegar e conhecer os devotos e verificar que o Bhagavad-gītā como ele é, de Śrīla Prabhupāda, já estava quase totalmente traduzido por Marcio Pombo (Mahakala Dāsa), que tinha sim, imenso desejo de ir para Los Angeles, para continuar traduzindo os demais livros, o que viria a acontecer mais tarde.
Consolidação da ISKCON no Brasil
A chegada de Mahavira Dāsa ao Brasil proporcionou um templo Hare Krishna a São Paulo, na Avenida Afrânio Peixoto 457, bairro Butantã, bem na entrada da Cidade Universitária (USP). Então, gerou-se uma estrutura para manutenção e evolução dos programas, que necessitava que devotos saíssem às ruas para pedir doações ou coletar dinheiro (lakṣmī). Iniciou-se o trabalho de ajustamento de conduta dos devotos e simpatizantes aos padrões internacionais da ISKCON, pois o padrão dos devotos anteriores, do Hawai, era menos exigente. Alguns nunca conseguiram se ajustar, embora tentassem, e acabaram se afastando.
Esses padrões, fieis à tradição Vaiṣṇava gauḍīya, além da observância de quatro princípios proibitivos – 1) não comer carne, peixes e ovos; 2) não se intoxicar; 3) não praticar sexo ilícito; 4) não praticar jogos de azar –, e da prática diária de japa (cantar 16 voltas, ou 1.728 vezes, o mahā-mantra Hare Kṛṣṇa: hare kṛṣṇa hare kṛṣṇa kṛṣṇa kṛṣṇa hare, hare rāma hare rāma hare) nas 108 contas do mala (uma espécie de rosário), também prescrevia hábitos disciplinares. Tais como, acordar às 3h30, tomar banho frio de madrugada, participar das cerimônias matinais (mangal arotik) e matutina (sundara arotik), bem como assistir às aulas do Śrīmad Bhāgavatam (de manhã) e da Bhagavad-gītā (à noite).
As aulas, tanto matinais quanto noturnas, seguem a ordem dos livros de Śrīla Prabhupāda. Ou seja, as aulas começam na primeira estrofe da obra e, a cada novo dia, lê-se a estrofe seguinte. Antes de iniciar a aula, faz-se bhajan (canto harmonioso de mantras devocionais), depois se lê a estrofe objeto da aula nos seus termos sânscritos, que é entoado pelo orador, e os ouvintes repetem palavra por palavras e, depois, verso por verso. Em seguida, lê-se a tradução de Śrīla Prabhupāda em Português. Quando o orador não fala Português, há um tradutor. Após a leitura do significado (comentário) de Śrīla Prabhupāda, o orador finalmente apresenta seus comentários, segundo sua realização pessoal.
Após o programa espiritual da manhã, que termina às 8h30, servia-se a refeição (prasada). Durante a semana, essa era a única refeição completa, sendo que a outra, à noite, era mais leve. Depois da primeira refeição, todos se encaminhavam a seus respectivos serviços, principalmente a execução do sankirtana, que poderia ser o cantar dos mantras coletivamente e/ou a distribuição de livros nas ruas. No domingo, todos participavam na organização da festa no templo, que em geral acontecia no final da tarde, com cantos, palestras e terminava com banquete lacto-vegetariano, com preparações típicas a Índia.
A ISKCON se constituiu juridicamente em 28 de fevereiro de 1975, como a Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna do Brasil-ISKCON. <9> O templo de São Paulo permaneceu na Rua Afrânio Peixoto, por alguns meses, até que, devido a problemas com a vizinhança por causa do barulho, teve de mudar-se. Foi para a Rua Bolívia 180, no Jardim Aeroporto, onde permaneceu até os meados de 1976. Então, mudou-se para o bairro Liberdade, inicialmente na Rua Pandiá Calógeras, 84, e, depois, no número 54 da mesma rua. Ainda nos anos de 1970, além do templo de São Paulo, foram abertos vários outros, como filiais da ISKCON do Brasil, em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Salvador e Recife. Também nessa época, a ISKCON implantou uma comunidade rural em Pindamonhangaba (SP), que ficaria conhecida como Nova Gokula.<10>
No início de sua inserção na sociedade brasileira, o Movimento Hare Krishna encontrou algumas dificuldades e oposições. A princípio desenvolveu-se certo temor entre alguns pais menos esclarecidos. Provavelmente pelo fato de que os primeiros devotos fossem muitos jovens, entusiastas, dedicados, e, muitas vezes, dotados de um discurso de contracultura. A imprensa sensacionalista e mal informada alimentava esse receio. Ela apresentava o Movimento Hare Krishna como algo extravagante, ridículo e até mesmo como uma seita perigosa, que realizava lavagem cerebral em seus adeptos e os afastava de suas famílias.
Desenvolveu-se, destarte, uma verdadeira campanha para marginalizar e encerrar as atividades do Movimento Hare Krishna no Brasil – algo que efetivamente aconteceria na Argentina em 1978. Não podemos esquecer que estávamos no auge do regime militar. Caso notório foi o de uma jornalista do Programa Fantástico, da Rede Globo, que, em março de 1977, aparentemente se converteu ao Movimento Hare Krishna. Depois se arrependeu, utilizando-se, então, da desculpa de que sua intenção original era se infiltrar para fazer uma reportagem para desmascarar a instituição. Curiosamente, nessa situação, a imprensa alternativa, como o Pasquim, pronunciou-se em defesa do Movimento.
Vários obstáculos legais também se apresentaram, talvez em decorrência da primeira situação, para a aceitação e reconhecimento oficial do Movimento Hare Krishna como uma religião genuína. O primeiro deles, em 1978, foi a declaração do Ministério da Justiça, “não reconhecendo aos filiados à Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna a qualidade de eclesiástico”<11>.
Esse caso e outros, como a proibição pelo Juizado de Menores do Rio de Janeiro da frequência de menores de idade nos templos da ISKCON, levou a liderança da ISKCON no Brasil a buscar meios para assegurar o reconhecimento do Movimento Hare Krishna como uma religião genuína. A primeira conquista foi o reconhecimento pelo antigo Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), que, após analisar as raízes teológicas do Movimento Hare Krishna, reconheceu, para fins previdenciários, aos seus sacerdotes (brâmanes) a condição de “ministros de confissão religiosa, membros de institutos de vida consagrada, congregações ou ordem religiosa”, equiparando-os a segurados autônomos.<12> Outra situação relevante aconteceu no Rio de Janeiro, quando fiscais do Ministério do Trabalho, multaram arbitrariamente a ISKCON, influenciados pelo preconceito do pai de uma devota. A alegação era o suposto descumprimento de obrigações trabalhistas em relação aos seus membros, os devotos. Tal evento acabou tornando-se providencial para o reconhecimento do status dos devotos como religiosos.
Com sua instância administrativa comprometida no Ministério do Trabalho, a ISKCON levou o caso aos tribunais. Na conclusão favorável ao Movimento, o magistrado deixa bem claro que: “A autora é, sem dúvida, uma religião, sendo livre, no Brasil, a liberdade de credo”; “As atividades são tipicamente de fundo religioso, inexistindo qual-quer possibilidade de relação empregatícia pela ausência de atividades que possam ser classificadas como de natureza comercial, industrial ou similar”; “Em síntese, as atividades podem ser classificadas como externas e internas sendo que essas últimas diariamente no templo onde comparecem os sacerdotes, iniciados, adeptos e outros que, sem vínculo com a religião, são amparados pela autora. Externamente os membros colhem donativos (trocam por publicações) para sustento dos seus componentes; amparo a necessitados e publicação de livros e apostilas nos quais demonstram os ensinamentos filosóficos e religiosos que pretendem ver aceitos pela humanidade”. <13>
Nessa mesma época, em consequência do contato que tiveram com a literatura védica e vaiṣṇava traduzida e escrita por Śrīla Prabhupāda, vários acadêmicos se pronunciaram quanto a identidade e importância do ensinamento apresentado pelo Movimento Hare Krishna. Por exemplo, o Dr. Ricardo Mario Gonçalves, livre-docente de História Oriental da USP, afirmou que “é errado rotular o Movimento Hare Krishna de seita, pois este nada mais é do que um dos ramos tradicionais do Hinduísmo que se difunde no Ocidente.” <14> Além do Professor Ricardo, vários outros acadêmicos, como José Quintella Vaz de Mello,<15> Rubens Costa Romanelli <16>, Carlos Alberto da Fonseca <17>, Jorge Bertolaso Stella <18>, apreciaram e comentaram sobre a importância da literatura traduzida por Śrīla Prabhupāda e divulgada pelo Movimento Hare Krishna.
No fim dos anos 1970, o Movimento Hare Krishna contou com a adesão de um importante intelectual baiano, o artista gráfico, músico, compositor, poeta, tradutor e professor doutor Rogério Duarte. Parceiro do poeta Torquato Neto e reconhecido como um dos mentores intelectuais do Movimento Tropicalista, Rogério Duarte foi também um dos primeiros presos políticos a denunciar publicamente a tortura no regime militar. Contudo, em decorrência do endurecimento desse regime e da promulgação do Ato Institucional No. 5, Rogério entrou na clandestinidade e iniciou a sua fase "transcendental". Esta o levou a estudar o Sânscrito e iniciar a tradução da Bhagavad-gītā, lançada por ele anos mais tarde, sob o título de Bhagavad Gītā: Canção do Divino Mestre (Duarte, 1998). Acompanha o livro um CD musical, que conta com a participação de astros da Música Popular Brasileira. Rogério Duarte foi iniciado com o nome de Raghunatha Dāsa. Ele conheceu os devotos em Salvador, em 1978, e chegou a morar no templo como um devoto monge. Trabalhou na editora de livros do Movimento Hare Krishna, a Bhaktivedanta Book Trust (BBT), tornando-se um dos seus mentores. Dava palpites na tradução, nas capas, ajudando muito na impressão de livros. Recentemente Rogério Duarte publicou uma tradução da obra clássica da Índia sobre bhakti (devoção), o Gitagovinda (Duarte, 2011) e se dedica também à arte de luthier <19>, resultado do aperfeiçoamento de sua apreciação pelo violão.
A contracultura e a alternativa Positiva
De outro lado, desde seu início, o Movimento Hare Krishna no Brasil, havia adotado pensamento crítico quanto à sociedade materialista e, de alguma forma identificava-se com algumas posturas da assim chamada “sociedade alternativa”. Para Śrīla Prabhupāda, “Os gigantescos empreendimentos são produtos de uma civilização sem Deus, e causam a destruição dos nobres objetivos da vida humana”; “Quanto mais continuarmos a aumentar essas indústrias problemáticas para sufocar a energia vital do ser humano, tanto mais haverá inquietação e insatisfação das pessoas em geral, embora apenas umas poucas possam viver suntuosamente através da exploração” (Prabhupāda 1995, p. 483)
Ele pedia: “aprendam a amar este modo de vida natural, vida num espaço aberto, produzam seus próprios cereais. Produzam seu próprio leite. Poupem tempo. Cantem Hare Krishna. Glorifiquem os santos nomes do Senhor. No final da vida, voltem para o mundo espiritual para viver para sempre. Vida simples, pensamento elevado – vida ideal” (Prabhupāda, 1991, p.16). Apesar de ser uma religião bem estruturada e institucionalizada, a ISKCON foi também classificada como “Nova Era”, nome atribuído por evangélicos a segmentos que reúnem desde consultas a artes divinatórias, passando por terapias do corpo e da mente, vivências xamânicas, técnicas de meditação, livros de autoajuda, alimentação naturalista, cristais, pirâmides, agências de viagens especializadas em roteiros a “lugares sagrados”, adorações à Lua, bruxarias (valorizadas nos seus aspectos positivos) etc.” (Guerriero, 2003, p. 130).
Segundo Guerriero, a contestação contracultural possibilitou o surgimento de comunidades rurais e urbanas que propunham uma maneira alternativa de viver (Guerriero, 1989, p. 133). Quanto a isso, Śrīla Prabhupāda, havia estabelecido como um dos propósitos da ISKCON “Manter os membros unidos com o propósito de ensinar um modo de vida mais simples e natural”. Além disso, as comunidades rurais do Movimento Hare Krishna possibilitariam “um local sagrado, de passatempos transcendentais, dedicado à personalidade de Krishna” <20>
Outro marco que caracterizou definitivamente a ISKCON como um movimento alternativo foi a participação dos seus membros em encontros organizados pela Associação Brasileira de Comunidades Alternativas (ABRASCA). Primeiramente nos anos de 1983, em Visconde de Mauá, RJ, e 1984, em São Lourenço, MG. Finalmente em 1985, no IX Encontro Nacional de Comunidades Alternativas (ENCA) realizado em Nova Gokula, comunidade rural da ISKCON em Pindamonhangaba, SP. O ENCA, realizado anualmente, por uma semana, congrega grupos de pessoas cuja proposta é viver em comunidades rurais, longe da cultura de consumo e praticando agricultura orgânica, yoga, meditação, terapias alternativas, rituais e cantos religiosos. Além de defesa do meio ambiente e educação das crianças em contato com a natureza.
O encontro em Nova Gokula foi inclusive um marco histórico na política brasileira, pois contou com a presença de nomes importantes da espiritualidade como o Professor Her-mógenes, George Krtikos e Hridayananda Dāsa Gosvāmī. Presentes também estavam im-portantes personagens ambientalistas, como Ana Primavessi, Edson Hiroshi Seo e Valdo França. Foi também palco do lançamento do Partido Verde, pelo então deputado Fernando Gabeira.
Yoga e Movimento Inter-religioso
Tendo em vista a sua missão de estabelecer um processo reconhecido de yoga, conhecido como bhakti-yoga, “o yoga da devoção”, o Movimento Hare Krishna sempre esteve associado, negativa ou positivamente, com a comunidade do yoga (ou ioga, em português). Quando consideramos a história da implantação do yoga no Brasil, a partir de 1947, com a chegada de Sevananda e a participação de outros pioneiros como Caio Miranda, Jean Pierre Bastiou, Shimada e Hermógenes, é possível perceber se estabelecendo uma forma ocidentalizada de yoga. Uma espécie de ciência esotérica ou de educação física. Coincidentemente, no início dos anos 1970, com a chegada do Movimento Hare Krishna, outros aspectos da cultura hindu começaram a se vincular ao yoga e ser popularizados na sociedade brasileira. Como, por exemplo, o uso de incenso e vestimenta indiana, a prática de terapia ayurvédica e a adoção de alimentação lacto-vegetariana etc.
A partir 1973, a relação que o Movimento Hare Krishna estabeleceu com a comunidade de yoga no Brasil foi, no início, um pouco tensa. Provavelmente isso tenha ocorrido em decorrência de dois motivos. O primeiro teria sido a propaganda negativa veiculada na imprensa sobre o Movimento Hare Krishna. O segundo, o despreparo dos primeiros e ainda jovens devotos em apresentar claramente as raízes filosóficas e teológicas da bhakti-yoga ou Consciência de Krishna. Por isso, certo estranhamento se manteve por um período. Tanto da parte dos devotos, que consideravam a bhakti-yoga de uma forma exclusiva e superior, quanto, dos professores de yoga, que posicionavam-se com reserva e suspeita contra a ISKCON e seus membros.
Contudo esta situação se reverteu consideravelmente nos meados de 1985, quando o Professor José Hermógenes estabeleceu postura pública de respeito e admiração para com os devotos. Inicialmente, ele tinha certa reserva em relação ao Movimento Hare Krishna, mas, mudou de opinião, depois do seu primeiro contato com a liderança da ISKCON, no Rio de Janeiro. Este fato viria contribuir em grande escala para remover pre-conceitos mútuos e construir uma relação madura, que perdura até os dias de hoje, entre os devotos de Krishna e a comunidade de yoga.
Outro fator notável da inserção do Movimento Hare Krishna na sociedade brasileira, em sua pluralidade cultural e religiosa, é o engajamento constante da ISKCON no movimento inter-religioso, desde os primeiros anos de sua chegada ao Brasil. Essa postura não sectária da ISKCON pode ser identificada na seguinte afirmativa, proferida no encontro Amor divino e pluralismo religioso: diversas fases e representações, realizado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), pelo Programa de Estudos e Pesquisas das Religiões, em 7 de novembro de 2014:
“Dentro da tradição do hinduísmo afirma-se o pluralismo religioso como parte do plano divino. Segundo os Vedas: “O real é um, mas os sábios descrevem-no de várias formas” (Rig Veda, 1.164.46). Quando se parte da pre-missa de que o conceito de Deus se refere, em igualdade, ao conceito do Absoluto ou da Realidade última, pode-se concluir que só existe uma única Divindade. Mas, quando as experiências com o Divino acontecem factualmente, no contexto da história, elas se manifestam diferentemente, nas várias tradições e culturas religiosas, como experiências singulares. Segundo a Bhagavad-gītā: “Na medida em que eles se voltam para mim, assim também eu os aceito; todos seguem o meu caminho de todas as formas” (Bhagavad-gītā, 4.11).”
Sociedade e Comunidades - Estrutura Sócio-Econõmica
A ISKCON, em todo mundo, desde sua fundação, sempre se manteve fiel filosófica e teologicamente as suas raízes Vaiṣṇava gauḍīya. Com “uma estrutura muito bem organizada em nível mundial, que congrega devotos de vários países, unifica as datas comemorativas, controla a publicação de livros, regulamenta e determina a hierarquização da classe sacerdotal” (Guerriero 1989, p. 84). Originalmente estabelecida por Śrīla Prabhupāda, a estrutura administrativa da ISKCON nunca foi negociável. Isto consta no seu testamento <21> e a distingue de como outras instituições Vaiṣṇavas gauḍīyas são administradas. Como primeiro item do testamento, temos que “O Governing Body Comission (GBC) será autoridade administrativa final de toda a Sociedade Intranacional para a Consciência de Krishna”. A seguir, o testamento estabelece também que “Cada templo será uma propriedade da ISKCON e será administrado por 3 diretores executivos <22>. Esse sistema de administração será mantido como é agora, não havendo necessidade de qualquer mudança”. Portanto, ainda segundo Śrīla Prabhupāda, “A formula para a organização da ISKCON é muito simples e todos podem entendê-la. O mundo é dividido em (...) zonas. Para cada zona há um secretário zonal. Seu dever é ver que os princípios espirituais estejam sendo bem mantidos em todos os templos de sua zona. Por sua vez, cada templo deve ser independente e autossuficiente. Que cada presidente de templo trabalhe se-gundo a sua própria capacidade para aprimorar a consciência de Krishna do seu centro (...) Nosso negócio é vida espiritual, então qualquer tipo de orga-nização que for necessário, os presidentes poderão cuidar e receber conselho e assistência dos representantes do GBC. Dessa forma o trabalho da socie-dade acontecerá e todos aumentarão seu serviço segundo sua capacidade criativa.<23>
Contudo, quando consideramos a sua conjuntura socioeconômica durante os seus anos iniciais, no final da década de 1970 e início da década de 1980, a ISKCON de hoje está diferente. Não mais encontramos grandes comunidades com templos, cheias de de-votos, coletando donativos, juntamente com uma intensa distribuição dos livros de Śrīla Prabhupāda. Naqueles tempos pioneiros, os programas espirituais e culturais nos tem-plos, bem como a manutenção dos devotos eram garantidos pelas coletas nas ruas e outros programas de pregação. A ajuda econômica proveniente de uma tímida e recém-formada congregação era incipiente.
Nessa época pioneira, a maioria dos devotos residia nos templos (aśramas), geralmente como estudantes celibatários (brahmacārīs) e raros monges renunciantes (sannyāsīs). Os poucos devotos casados (gṛhasthas) viviam em cômodos separados nos templos. Apenas em comunidades rurais, como Nova Gokula e outras, os devotos casados viviam juntos em suas residências. Embora houvesse poucos devotos casados nos templos, ainda assim eles tiveram papel chave no desenvolvimento da ISKCON no Brasil. Muitos dos presidentes de templos e sacerdotes (pūjarīs) eram casados. Nessa conjuntura, o Movimento Hare Krishna era mantido por esses devotos dedicados (rendidos), que saíam às ruas para distribuir os livros de Śrīla Prabhupāda e arrecadar donativos para a manutenção dos templos e membros da comunidade.
Mas, à medida que os núcleos familiares se desenvolveram na década 90, o Movimento Hare Krishna experimentou transformações. Sua estrutura organizacional e econômica passou de comunidades para congregações. Hoje são as congregações de membros participativos que mantém os templos e projetos da ISKCON.
Com essa mudança paradigmática, a partir dos anos 90, houve redução notável de grandes templos, que fecharam, na impossibilidade de pagar grandes aluguéis. Outros se transferiram para casas menores. Esse foi o caso principalmente dos templos do Rio de Janeiro, na Ladeira da Glória 89, Outeiro da Glória, e de São Paulo, na Rua Bom Pastor 455, Ipiranga. Depois de funcionarem em verdadeiras mansões, fecharam para depois reabrirem em casas bem menores.
Este esvaziamento de devotos residentes dos templos não significa necessariamente diminuição dos membros da ISKCON. Esses devotos constituíram suas famílias, se estruturaram economicamente em congregações, ou abriram centros de pregações em muitas cidades, onde anteriormente não havia templos. Contudo, a imagem pública dos devotos com suas roupas exóticas e cabeças raspadas tornou-se mais escassa. O que reforçaria a impressão de esvaziamento do Movimento Hare Krishna.
Hoje não mais se pode chamar de seita a ISKCON, como acontecia nos anos iniciais, em sua característica de comunidades introvertidas. “Perdendo sua característica de seita e a necessidade de conversão, a ISKCON se tornou uma opção a mais para as escolhas religiosas individuais” (Guerriero, 2001, p. 54). Os templos agora são enfim considerados mais como igrejas, com suas congregações participativas e integradas social e profissionalmente na sociedade. Inclusive a ISKCON implantou um seminário em Campina Grande (PB), que, por quase um ano letivo, forma qualquer pessoa interessada em aprofundar-se nos princípios teológicos da Consciência de Krishna. Algo que anteriormente somente seria possível dentro de vivência monástica nas comunidades ou templos.
Distribuição de Livros e Pregação
A modernização do Vaiṣṇavismo gauḍīya, no século XIX, aconteceu com o uso de tecnologias, como impressão de livros, por Bhaktivinoda Thakura, que “inaugurou um movimento religioso baseado na publicação da palavra escrita” (Fuller, 2001, p. 301). Isso foi seguido e aprimorado por Bhaktisiddhānta Sarasvatī e Śrīla Prabhupāda, que ousadamente levaram para o mundo a mensagem da Consciência de Krishna.
Similarmente, com o advento das novas tecnologias de comunicação, como a internet, que descortinou novas fronteiras para a divulgação da Consciência de Krishna, surgiram fóruns de discussões e redes sociais, muito úteis para os estudos filosóficos de congregações de devotos que nunca puseram os pés em um templo ou comunidade da ISKCON. Em junho de 1997, Fernando Augusto Dias criou o Hare Krishna Brasil, http://www.iskcon.net/br, que seria o primeiro site do Movimento Hare Krishna no Brasil em português. O site abrangia as informações básicas sobre o Movimento e a filosofia, bem como vários aspectos da cultura védica, como artes, ciências e saúde, além de serviços, downloads e links. Logo depois, a divisão brasileira da editora do Movimento Hare Krishna, a Bhaktivedanta Book Trust (BBT), lançou a versão em Português (http://pt.krishna.com) do seu site original. A versão nacional do site da BBT já abrigava o Programa Amigos de Krishna, fundado nos anos 1980, pela Fundação Bhaktivedanta, então mantenedora da BBT no Brasil, para responder por carta aos contatos captados pela distribuição de livros. Muitos fóruns de discussões e páginas em comunidades sociais, como o Orkut e Facebook, tornaram a Consciência de Krishna mais presente no dia-a-dia dos devotos no mundo todo. Os projetos rurais da ISKCON, no início, eram principalmente locais sagrados de peregrinação e comunidades de famílias residentes dedicadas ao ideal de “vida simples e pensamento elevado”. Na atualidade, entretanto, tornaram-se verdadeiras eco vilas com projetos ambientais bem desenvolvidos. Algumas comunidades construíram estruturas para hospedagem e realização de festivais, congressos e retiros para grupos de yoga e terapias. Investiram na recepção de turistas e devotos peregrinos, em festivais e encontros do Movimento Hare Krishna, como kīrtanas, curso de capacitação e educação.
As atividades litúrgicas, aulas sobre as escrituras védicas, e orientação sobre o processo de Bhakti são administradas nos templos e centros culturais (ou de pregação) da ISKCON. Entretanto, há também vários pregadores experientes, como os sannyāsīs,<24> que viajam pelos centros do Brasil dando aulas e cursos. Alguns desses devotos são mestres espirituais (dīkṣa-gurus) que, além de disseminar conhecimento espiritual, iniciam discípulos qualificados que pretendam praticar a tradição Vaiṣṇava gauḍīya. Dessa forma, podemos ver que a educação espiritual dos devotos, administrada via aulas nos templos e centros de pregação, encontros residenciais, nos sites, fóruns e comunidades da internet, é consolidada por estes mestres espirituais e outros devotos seniores.
Contudo, nos dias de hoje não podemos mais identificar o Movimento Hare Krishna apenas com a ISKCON. Pois, já existem no Brasil outras iniciativas e missões de pregação do Vaiṣṇavismo gauḍīya, que se identificam e seguem os mesmos princípios filosóficos e teológicos da ISKCON. Algumas delas, como a Missão Vrinda e a Missão Prabhupāda Vani, podem ser consideradas dissidências da ISKCON.
Há ainda outras instituições, como as diferentes Gauḍīyas Mathas, que não podem ser consideradas dissidências, pois são ou derivam de instituições que já existiam antes de Śrīla Prabhupāda fundar a ISKCON. Seriam como instituições irmãs, pois foram fundadas ou inspiradas por irmãos espirituais de Śrīla Prabhupāda, ou seja, condiscípulos de Śrīla Bhaktisiddhānta Sarasvatī, o ācārya fundador da Gauḍīya Matha original. Essas instituições começaram a vir para o Ocidente e chegaram ao Brasil nos fins dos anos 80. Assim, prosseguiram nas décadas seguintes, inspiradas pelo sucesso de Śrīla Prabhupāda e com adesão de ex-membros da ISKCON,
Conclusão
Depois de mais de 40 anos presente no Brasil, a situação atual do Movimento Hare Krishna pode ser bem ilustrada pela seguinte afirmação do Professor Dr. Silas Guerriero: “A presença da ISKCON em nossa sociedade é quantitativamente desprezível, mas representa algo significativo não só pela manifestação de entusiasmo de seus adeptos, mas pela contribuição dada por elementos de sua teologia ao quadro cultural religioso mais amplo” (Guerriero, 2001, p. 54). Segundo ainda ele:
“Hoje ninguém se espanta ao ver um Hare Krishna na rua, mas fundamentalmente, suas concepções e visões de mundo deixaram de ser simplesmente exóticas e fazem parte do universo de crenças da população em geral. Os traços culturais do Oriente védico estão agora incorporados à sociedade brasileira. Os devotos de Krishna formam uma micro sociedade consolidada. São vistos com respeito pelas outras religiões, pelos líderes políticos, pela imprensa e pela opinião pública. Conquistaram um espaço na nossa sociedade, não tão védico mas, sem dúvida diferente e complexo” (Guerriero, 2001, p. 55).
Notas
<1> Monge renunciado com voto vitalício de celibato; membro da ordem de sannyasa que caracterizam o estado civil (asrama) dos seguidores do Hinduísmo.
<2> A Gauḍīya Matha foi a instituição fundada por Bhakti Siddhanta Sarasvati, com 64 ramificações por toda a Índia.
<3> Ācārya significa aquele que ensina pelo seu exemplo; nesse caso, indica o líder de uma instituição reli-giosa.
<4> Em 1933, Bhaktisiddhānta Sarasvati já havia enviado seus sannyāsīs pregadores B. H. Bom e B. P. Tirtha para a Alemanha e Inglaterra.
<5> Sampradāya significa literalmente “tradição”; indica uma sucessão discípular de mestres e discípulos.
<6> Na época o Programa Silvio Santos estava na Rede Globo, em São Paulo.
<7> Carta para Govinda Dasi, Los Angeles, 20 de abril de 1973.
<8> Telegrama da EMBRATEL, enviado de Culver City, CA, EUA, recebido em Salvador, BA, em 16/12/1974.
<9 span=""> >Com seus atos constitutivos e estatutos sociais registrado em 11 de março de 1975 no 1º Oficio de Registro de Títulos e Documentos da Cidade de São Paulo, sob o nº 33723 do livro "a" nº 24 do Registro Ci-vil de Pessoas Jurídicas.
<10> A primeira comunidade da ISKCON foi a de Nova Ayodhya, situada na propriedade de José Claudio-Belfort, mas quando a ISKCON, em 1978, adquiriu sede própria em Pindamonhangaba, foi transferida para lá, e logo em seguida teve o seu nome alterado para Nova Gokula.
<11> Processo n. 004667/78 MJ, para dispensa de depósito prévio para eclesiásticos em viagem ao exterior.
<12> Processo n. INPS 21-000/902.634/77.
<13> Ação ordinária n. 5.159.334, classe 01015, Vara 081, proposta pela SOCIEDADE INTERNACIONAL PARA A CONSCIÊNCIA DE KRISHNA DO BRASIL – ISKCON contra a UNIÃO.
<14> Ricardo Mario Gonçalves, “Igrejas ou seitas?” Folha da Tarde, São Paulo, 16/01/1979, p. 21.
<15> Professor de Línguas Orientais, Catedrático emérito da PUC-MG.
<16> Professor de Linguística Hindu-Europeia Introdutória na UFMG.
<17> Professor do Curso de Língua e Literatura Sânscrita da USP.
<18> Professor emérito da cadeira de História das Religiões do antigo Seminário Teológico da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, um dos primeiros sanscritistas do Brasil.
<19> Construção e reparo de instrumentos de corda com caixa de ressonância (guitarra, violino etc.), mas não daqueles dotados de teclado (Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa).
<20> Em 1965 Srila Prabhupāda fundou a ISKCON com sete propósitos específicos: http://pt.krishna.com/os-sete-prop%C3%B3sitos-da-iskcon
<21> Prabhupāda’s Will, 6/6/1977.
<22> Presidente, secretário, tesoureiro.
<23> Memorando a todos os presidentes de templos da ISKCON, assinado por Srila Prabhupāda e Karandhara dāsa, datado de 22 de abril de 1972.
<24> Os sannyāsīs são monges, membros da ordem renunciada da vida, com voto de celibato perpetuo, dedicados exclusivamente ao trabalho de pregação e orientação espiritual aos devotos.
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Fonte : https://www.facebook.com/notes/lucio-valera/o-movimento-hare-krishna-no-brasil-por-l%C3%BAcio-valera/10155448616260617/

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