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O padre brasileiro Roberto Landell de Moura, o outro inventor do rádio.


         Roberto Landell de Moura nasceu na cidade de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, em 21 de janeiro de 1861, filho do capitão do Exército e grande comerciante de carvão Inácio José Ferreira de Moura e de Sara Mariana Landell, ambos de tradicionais famílias gaúchas, descendente o pai de portugueses e a mãe de escoceses. Foi o quarto de quatorze irmãos, tendo sido batizado na Igreja do Rosário, junto com sua irmã Rosa, em 19 de fevereiro de 1863.
        Seu pai lhe transmitiu as primeiras letras. Realizou os seus primeiros estudos formais em Porto Alegre, na escola do professor Hilário Ribeiro, e em 1872 matriculou-se com seu irmão Ignácio no Colégio Jesuíta de Nossa Senhora da Conceição, em São Leopoldo, na época o mais distinguido colégio do estado, onde cursou Humanidades, concluindo esta etapa em 10 de outubro de 1873. 
       Voltou a Porto Alegre e ingressou em 1874 no colégio do professor Fernando Ferreira Gomes, também um educandário de grande prestígio e o maior da capital, onde estudou francês, alemão e gramática portuguesa. Em manuscritos seus, há uma notícia de que aos dezesseis anos teria inventado uma espécie de telefone, apenas um ano depois de Graham Bell, mas não deixou nenhuma descrição precisa do aparelho.
        Com o fechamento parcial do Colégio Gomes em 1876, devido à aposentadoria do seu diretor, Landell de Moura seguiu para o Rio de Janeiro, com o objetivo de estudar na Escola Politécnica, ao que parece sustentando-se com emprego em um armazém de secos e molhados. No entanto, permaneceria ali poucos meses. Seu irmão Guilherme o encontrou na cidade do Rio antes de seguir para Roma, onde estudaria para tornar-se padre, e o convenceu a abraçar também a vida religiosa.
     Matriculou-se em 22 de março de 1878 no Colégio Pio Americano, onde estudou Direito Canônico, ingressando ao mesmo tempo na Universidade Gregoriana, onde fez outros estudos, de natureza incerta. Completou sua formação eclesiástica e foi ordenado sacerdote secular em 28 de outubro de 1886, no mesmo dia celebrando sua primeira missa. Em Roma conceberia sua teoria sobre a unidade entre as forças físicas do Universo e sua harmonia essencial.
       Chegando de retorno ao Brasil em 7 de fevereiro de 1887, passou a residir no Seminário São José, localizado no Morro do Castelo, no Rio de Janeiro. Nesta época substituiu algumas vezes o coadjutor do capelão do Paço Imperial, rezando sua primeira missa no Rio para o imperador D. Pedro II e sua corte. Com o imperador, outro amante das ciências, entreteria várias conversas.
        Contudo sua permanência no Rio seria novamente breve. Em 20 de fevereiro de 1887 estava de volta ao Rio Grande do Sul, nomeado capelão da Capela Nosso Senhor Jesus do Bom Fim e professor de História Universal do Seminário Episcopal de Porto Alegre. Em 27 de junho de 1891 foi provisionado vigário encomendado da Paróquia de Santana na cidade de Uruguaiana, ali ficando até 31 de outubro do mesmo ano.
        Em 1892 foi transferido para o estado de São Paulo, designado para a paróquia de Santos, e de 28 de outubro de 1894 a 19 de dezembro de 1896 foi pró-pároco da Igreja Matriz de Santa Cruz (hoje a Basílica Nossa Senhora do Carmo), em Campinas, mandando dourar o púlpito, as tribunas e os altares, mas desenvolveu uma atuação pastoral discreta, uma vez que era um simples substituto do titular, o cônego Cipião Goulart Junqueira, que já era idoso. Em 2 de março de 1898 foi nomeado pároco da Capela de Santa Cruz de Santana, na cidade de São Paulo, assumindo também a responsabilidade pela tesouraria da paróquia e pela capelania do Colégio Sagrado Coração de Maria. No ano seguinte ele é encontrado envolvido em um grandioso projeto de construção de uma instituição de ensino, a que chamou de “A Polymathica”, composta de um internato, um externato, um colégio proletário e um grêmio para abrigo de senhoras que queriam se retirar do mundo, mas seus planos acabaram frustrados, pois não conseguiu verbas para finalizar as obras. Permaneceria nesta paróquia até outubro de 1900, quando exonerou-se.
       Neste ínterim começava a ser conhecido pelo seu envolvimento com a ciência e iniciava suas primeiras experiências, que desde logo despertaram controvérsias e lhe deram má fama popular. Previa que seria possível a comunicação entre mundos diferentes, e divulgando essas ideias, provocou a ira de seus paroquianos, pois a doutrina da Igreja na época não admitia a possibilidade de vida fora da Terra. Por conta destas ideias revolucionárias, teve seu laboratório vandalizado.
      Em 1892 teria construído o primeiro transmissor sem fio de mensagens, antes de Guglielmo Marconi fazer seus primeiros testes na Itália. Entre 1893 e 1894, segundo Fornari, seu primeiro biógrafo e seu contemporâneo, teria realizado a primeira transmissão pública de som por meio de ondas hertzianas, ocorrida entre o alto da Avenida Paulista e o Alto de Santana, cobrindo uma distância de oito quilômetros. Na ocasião ele testou um transmissor de ondas, um telégrafo sem fio e um telefone sem fio. Contudo, segundo Luiz Netto, não existe documentação sólida a respeito da data dos primeiros experimentos, o que prejudicou seu reconhecimento internacional. Testemunhos de Jayme Leal Velloso, Arthur Dias, Maria Ribeiro de Almeida e do Correio do Povo, recolhidos por Hamilton Almeida, colocam seus primeiros experimentos entre 1890 e 1896. Os experimentos se sucederiam, e em 1899 o Jornal do Commercio assinalou seu sucesso e seu pioneirismo mundial no campo da transmissão do som sem fio:
        "Nas diversas experiências executadas recentemente notou o inteligente inventor, que a zona que à mercê das vibrações do éter percorre o som articulado, se vai alargando à medida que se aproxima do receptor, de modo que, colocando-se vários desses receptores dentro do mesmo campo de recepção, alguns metros separados uns dos outros, todos eles recebem ao mesmo tempo com a mesma clareza a palavra transmitida. Deste resultado, que se saiba, não o obteve sábio algum, nem no velho nem no novo mundo, cabe ao padre Landell toda a glória da invenção. Para tal alcançar não se pense que o infatigável homem de ciência foi de um salto, há muitos anos que faz experiências e estuda metodicamente, entregando-se inteiramente à construção do triunfo que acaba de conseguir, sujeito por certo às leis da mais esquisita precisão, das quais fez nascer o seu pequeno aparelho transmissor e o seu pequeníssimo receptor".
        A primeira inequívoca demonstração pública de seus inventos ocorreu no dia 3 de junho de 1900, tendo como testemunhas o cônsul britânico em São Paulo, Percy Charles Parmenter Lupton, mais autoridades brasileiras, empresários e populares, "as quais foram coroadas de brilhante êxito", conforme noticiou o Jornal do Commercio. A bibliografia brasileira em geral aceita este testemunho como fidedigno, e considera pelo menos plausível a hipótese de que tenha tido sucesso na transmissão de som sem fio bem antes. Alguns admitem que possa ter antecedido também as conquistas de Guglielmo Marconi na transmissão de sinais telegráficos sem fio.[5] Em 10 de dezembro de 1900 o doutor J. Rodrigo Botet, através do jornal La Voz de España, em sua edição brasileira, reforçou o seu pioneirismo:

"Um jornal da capital federal atribuiu a invenção desse aparelho, que tem a propriedade de transmitir a voz humana a uma distância de oito dez ou 12 quilômetros sem necessidade de fios metálicos, ao engenheiro inglês Brighton. O diário a que me refiro está mal informado. Nem a invenção do sistema de transmitir a palavra a distâncias é recente nem foi um inglês o primeiro sábio que resolveu satisfatoriamente esse árduo problema, que envolveu os mais intricados princípios físico-químicos que podem oferecer-se a ciência humana. O que primeiro penetrou e descobriu os grandes segredos da telúrica etérea com glória e proveito, faz pouco mais ou menos um ano foi um brasileiro, foi o nobre sábio o padre Roberto Landell de Moura. Porque acompanhei passo a passo o estudo de seus inventos sobre telegrafia e telefonia, com e sem fios; porque fui testemunha presencial de várias experiências, todas prodigiosas; e porque tive a honra de me ocupar do sábio e de suas eminentes obras em dois artigos publicados em El Diário Español, de São Paulo, artigos que mereceram a honra de ser reproduzidos no Rio de Janeiro, no Jornal do Comércio, por tudo isto, julgo-me obrigado, agora a sair em defesa do direito de prioridade que assiste ao benemérito brasileiro o padre Roberto Landell de Moura, no que tange à transmissão da palavra falada sem necessidade de fios. [...]

"O mérito cresce de ponto, em se considerando que os inventores europeus e americanos dispõem de operários mecânicos inteligentíssimos e de fábricas e laboratórios onde escolher as peças que a feitura de seus mecanismos requer. O pe. Landell tem que conceber e executar ele mesmo os aparelhos, sendo a um só tempo o sábio que inventa, o engenheiro que calcula e o operário que forja e ajusta todas as peças de complicadíssimos mecanismos. [...] Mas acontece que o humilde sacerdote se fecha em sua modéstia habitual em vez de dormir sobre os louros. Os poucos amigos e admiradores que tem a seu lado são capazes de compreender o sábio e avaliar o valor de seus inventos".

        Com os bons resultados obtidos, em 9 de março de 1901 Landell de Moura conseguiu obter a primeira patente brasileira para um “aparelho destinado à transmissão fonética à distância, com fio ou sem fio, através do espaço, da terra e do elemento aquoso”. Diante disso, a Igreja reconheceu o seu mérito e autorizou que iniciasse em 14 de junho uma excursão científica, que passou pela Itália, França e Estados Unidos. Neste país instalou um laboratório na cidade de Nova Iorque, onde permaneceria quatro anos. Ele pretendia patentear os inventos também nos Estados Unidos, mas o Departamento de Patentes exigiu a apresentação de protótipos funcionais para conceder os registros. Como ele havia levado apenas os projetos, teve de construir três aparelhos, o que prolongou sua estadia. O jornal New York Herald publicou em 1902 uma reportagem sobre as experiências desenvolvidas na transmissão de sons sem uso de aparelhos com fio, inclusive por cientistas americanos, alemães, ingleses dentre outros, destacando o padre Landel
          Segundo Santos e Casonatto, a partir da divulgação dos seus inventos na imprensa, empresários norte-americanos ofereceram elevadas somas ao padre para que autorizasse a sua produção industrial. Porém, ele recusou esta oportunidade de ser reconhecido em ampla escala, dizendo que “os inventos já não mais me pertencem. Por mercê de Deus, sou apenas o depositário deles. Vou levá-los para minha Pátria, o Brasil, a quem compete entregá-los à humanidade”. Enquanto estava lá, contraiu pneumonia e bronquite e passou alguns meses em Cuba em busca de melhores ares, voltando a Nova Iorque em 3 de junho de 1903, e retomando seu trabalho nos protótipos. Em 1904 obteve enfim três patentes norte-americanas: número 771.917, de 11 de outubro, para um “transmissor de ondas”, e em de 22 de novembro as de números 775.337 e 775.846, para um “telefone sem fio” e para um “telégrafo sem fio”, que poderiam funcionar através da luz ou de ondas de rádio, com ou sem fio. No mesmo ano desenvolveu um projeto para transmissão de imagens à distância, cuja tecnologia o tornaria também um pioneiro da televisão, do teletipo e do controle remoto. Novamente Netto diz que a documentação é pobre sobre este trabalho, impedindo que se conheça até que ponto ele chegou realmente.
      Voltou ao Brasil em 1905, assumindo a paróquia de Botucatu, mas continuava com suas pesquisas, solicitando no mesmo ano um auxílio financeiro aos deputados do estado de São Paulo a fim de poder continuar seus trabalhos e colocar em prática seus inventos, mas seus pedidos não sensibilizaram os parlamentares e foram arquivados. Fez um apelo ao presidente da República Rodrigues Alves para que disponibilizasse dois navios da Marinha, desejando demonstrar a transmissão sem fio em longas distâncias. O assessor da Presidência encarregado de analisar o caso não deu crédito ao padre, e consta que disse ao presidente: “Excelência, o tal padre é positivamente maluco. Imagina que ele chegou até a falar-me na possibilidade de conversar um dia, com outros mundos”, o que resultou na rejeição de seu pedido. Inconformado, em um acesso de raiva, Landell destruiu vários de seus aparelhos. De acordo com declarações tardias de Landell de Moura, nesta época ele teria sido obrigado pela Igreja a abandonar seus experimentos. Em 22 de abril de 1906 assumiu a paróquia de Mogi das Cruzes, mas nada ficou registrado de sua passagem e exonerou-se em 24 de março de 1907. Neste ano escreveu um memorial descrevendo os efeitos eletro-luminescentes de um indeterminado campo energético que envolveria os seres vivos, registrando-os em filme fotográfico, fenômeno conhecido hoje como efeito Kirlian, mas não se sabe se ele tinha conhecimento de experiências anteriores de Fernando Sanford neste campo. Ao mesmo tempo, descreveu os efeitos da eletricidade sobre o corpo humano.
         Sem uma designação eclesiástica, Landell de Moura passou algum tempo em Tambaú e depois voltou para a capital paulista. Em 2 de julho de 1908 foi nomeado vigário encomendado da paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Caconde, atendendo também uma capela em Tapiratiba e outras cidades da região de Ribeirão Preto. No ano seguinte demonstrou interesse em partir. Como havia ganhado a simpatia da comunidade, foi feito um abaixo-assinado para que permanecesse, mas em 27 de setembro de 1908 pediu exoneração e transferiu-se para o Rio Grande do Sul.
        Chegou a Porto Alegre em 15 de outubro, assumindo a paróquia do Menino Deus, onde atuou até 31 de dezembro de 1914. Há poucos sinais de suas atividades neste intervalo, quer científicas, quer pastorais. Participou da cerimônia de inauguração de um pequeno jardim zoológico no bairro do Menino Deus em 1913 e por algum tempo foi diretor do Asilo de Santa Thereza, hoje o Asilo Padre Cacique. Ainda em 1913 trabalhou no aperfeiçoamento do seu sistema de transmissão de imagens, dando-lhe o nome de "televisão". Com a fundação da Faculdade de Medicina Homeopática em 1914, assumiu uma cátedra, junto com seu irmão João, que era farmacêutico e médico. Na inauguração da escola, em 2 de março, o padre Landell proferiu um discurso sobre a lei dos similares, que constitui o princípio básico da homeopatia. No entanto, no mesmo ano uma crise interna provocou a cisão da instituição em duas novas escolas superiores, a Faculdade de Ciências Médicas e Escola Médico-Cirúrgica, e em nenhuma delas a homeopatia foi incluída.
        Retomou suas atribuições eclesiásticas e em 6 de janeiro de 1915 foi nomeado vigário-geral da Arquidiocese. Diz Casonatto que "segundo alguns, havia deixado a paróquia do Menino Deus profundamente magoado e como que desanimado". Talvez isso tenha se devido em parte a uma saúde em declínio, havendo notícia desde 1915 de uma série de pedidos de licença para tratamento médico e temporadas em estações termais. Assumiu ao mesmo tempo a paróquia de Nossa Senhora do Rosário, onde entrou várias vezes em conflito com o clero e os fiéis a respeito de devoções não aprovadas e por seus estudos sobre o espiritismo e a psicologia, mas segundo Casonatto deixou as finanças da paróquia em boas condições. Em 7 de junho de 1916 foi nomeado cônego capitular e penitenciário do Cabido Metropolitano de Porto Alegre. Em 1919 publicou o livro Apontamentos de Psychologia e em 1920 participou da fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Em 17 de setembro de 1927 recebeu o título eclesiástico de monsenhor, e no ano seguinte foi nomeado arcediago.
        Em 1928, com a vida periclitando e já recolhido ao hospital da Beneficência Portuguesa, um amigo perguntou-lhe por que motivo nunca havia feito propaganda de seus inventos e de suas patentes, e a resposta foi que "não podia e não devia aparecer como inventor. E continuou que anos antes, havia sido aconselhado a deixar a batina, para dedicar-se só à ciência, respondera que não por que respeitava seu voto, e que seu sacerdócio fora a maior aspiração de seus pais. Resolveu renunciar às glórias que as suas invenções lhe puderam conquistar”.
         Faleceu no dia 30 de junho de 1928, vitimado pela tuberculose, agravada pelo tabagismo, sendo um fumante inveterado. Recebera os últimos sacramentos do arcebispo metropolitano dom João Becker. A encomendação do corpo ocorreu na Catedral entre grande solenidade, oficiada pelo arcebispo e vários outros clérigos, e acompanhada por todo o Cabido e grande assistência popular, num dia de chuva torrencial, sendo sepultado na Gruta de Nossa Senhora de Lourdes do Cemitério São Miguel e Almas. Sua morte foi noticiada em vários jornais, recebeu obituários elogiosos, e a Assembleia Legislativa do Estado aprovou um Voto de Pesar.
        Em 13 de julho de 2002, com grande cortejo solene de populares, autoridades e destacamentos da Brigada Militar, da Liga de Defesa Nacional, do Movimento Tradicionalista Gaúcho, do 3º Batalhão de Comunicações do Exército e de escoteiros, seus restos mortais foram transladados sobre um carro do Corpo de Bombeiros até a Igreja do Rosário, onde foram inumados num altar lateral, sendo instalada ali uma placa comemorativa.

Fonte:
Klöckner, Luciano & Cachafeiro, Manolo Silveiro (orgs.). Por que o Pe. Roberto Landell de Moura foi inovador? Conhecimento, fé e ciência. EdiPUCRS, 2012, pp. 17-37

Klöckner, Luciano & Cachafeiro, Manolo Silveiro (orgs.). Por que o Pe. Roberto Landell de Moura foi inovador? Conhecimento, fé e ciência. EdiPUCRS, 2012, pp. 12-13

Botet, Rodrigo. "O Gouradphono". La Voz de España, 24/02/1901Ir para cima
"Foi um brasileiro, um riograndense que inventou a telephonia sem fio!" Jornal da Manhã, 25/06/1933

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