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A história de Martinelli, o imigrante que sonhou subir aos céus


Quando pensamos no avô dos arranha-céus, a imagem do Empire State Building provavelmente é a que virá à mente. Com 102 andares e 381 metros de altura, o prédio constantemente figura em blockbusters de Hollywood – desde King Kong até Independence Day, é difícil não pensar nele. Com construção terminada em 1931, ele foi apenas suplementado em altura pelo antigo complexo do World Trade Center, ao início dos anos 1970.
E quando falamos dos avôs dos arranha-céus especificamente no Brasil? Alguns podem associar a imagem do Empire State e pensar automaticamente no Edifício Altino Arantes (em São Paulo -SP)  – também conhecido como Edifício Banespa – com seus 181 metros e arquitetura um tanto quanto semelhante ao Empire State em “menor escala”.
O título de vovô, porém, é de direito a outro prédio icônico do centro histórico de São Paulo, que sofre com a sombra do Banespão – tanto figurativa como literalmente: o Martinelli.
Giuseppe Martinelli teve história semelhante a tantos outros imigrantes italianos no Brasil. Chegara no país com o objetivo de prosperar, tal qual outros contemporâneos, como Francesco Matarazzo o fizera.
Martinelli conseguiu fazer fortuna com a atividade portuária, de modo astuto, dinâmico e audacioso durante a Primeira Guerra Mundial. Após a aposta de navegar em águas beligerantes, o italiano havia traçado um novo propósito na vida: construir um edifício que arranhasse o céu duma cidade que praticamente não tinha prédios com mais de cinco andares.
O início da construção – a qual se arrastaria por alguns anos – se deu em 1924. Originalmente, o prédio teria apenas 12 andares, projetado pelo arquiteto húngaro William Fillinger.
Embora formalmente a altura não poderia impressionar, o acabamento proposto por Giuseppe para seu prédio homônimo seria de luxo nunca antes visto na cidade. A fachada foi desenhada pelos Irmãos Lacombe – também responsáveis pelo Túnel que faz com que a Av. 9 de Julho passe por baixo da Paulista. As portas eram de madeira de lei. As escadas tinham mármore italiano. O cimento veio da Noruega e da Suécia, sendo que neste ponto, a importadora marítima de Martinelli ajudou.
O problema começou quando, incentivado por amigos, o prédio foi saindo dos propostos 12 andares. Martinelli conseguiu fazer com que seu edifício chegasse aos 24, o dobro do previsto originalmente.
Numa cidade prticamente térrea e numa obra que não parecia acabar nunca, o debate inflamado e a desconfiança começaram a imperar. E se o prédio caísse? Afinal, ele estava localizado numa das áreas mais nobres de até então – e uma das mais densamente povoadas também, um terreno entre as ruas São bento, Libero Badaró e a Avenida São João.
Para piorar a situação de Martinelli, após a recusa inicial dos arquitetos em aumentar o espigão, esses foram demitidos e vieram à imprensa em 1928. A polêmica se deu quando aqueles deram declarações acerca das fundações do prédio – originalmente para 14 andares num momento no qual o prédio estava com dez a mais.
Martinelli viu sua Magnum opus embargada e teve que lutar na justiça para que o prédio seguisse em construção. Para provar que a construção era segura, ele mesmo se mudou para o edifício. O prédio atingiu 25 andares – algo completamente inédito para o hemisfério sul – e no topo, Martinelli construiu um palacete (foto abaixo) de cinco andares, onde moraria.
Para o imigrante, a propriedade do edifício foi breve. Martinelli foi “dono” do prédio que levava seu nome até 1934, quando, endividado por conta da longa duração da construção e por conta da Crise Econômica de 1929, teve de ceder o edifício para o governo italiano – para o qual pedira empréstimos para finalizar a obra. Após o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial – contra o eixo composto por Alemanha e Itália – o bem foi confiscado – tal qual todos os outros bens estatais pertencentes às potências do eixo – e o edifício passou a ser propriedade da União.
Na realidade, o agora “Edifício América” virou terra de ninguém. Menos de duas décadas depois, o edifício rapidamente passou a se deteriorar. Nos anos 60 foi palco de crimes notórios era praticamente uma favela vertical. Em 1975, o prefeito Olavo Setúbal desapropriou o edifício e começou o projeto de revitalizá-lo. A fachada foi limpa, os sistemas hidráulicos e elétricos foram modernizados e em 1979 o edifício foi reinaugurado como sede de diversas repartições do município, como a Emurb.

O legado do Martinelli
São Paulo seria conhecida como “selva de pedra” se não fosse o Martinelli? Provavelmente. Após a crise de 1929 outros setores da economia que não o café começaram a ser explorados na economia brasileira e naturalmente ocorreria a verticalização da capital do Estado. De toda forma, o Martinelli foi o pioneiro. Formalmente, foi o maior arranha-céu do Brasil de sua finalização (contando com a Casa do Comendador) até 1947.
Materialmente ele foi o primeiro a riscar o céu de São Paulo, provando que era possível que São Paulo tivesse uma arquitetura além daquela dos sobrados coloniais. O edifício foi um dos primeiros a funcionar como um epicentro cultural.
Se você quer ir a um cinema hoje, vai a um Shopping. Na primeira metade do século XX, ia ao “Cine Rosário” do Martinelli, onde o traje social completo era requerido. Se você queria jogos carteados, o Martinelli era o local, com um cassino frequentado apenas pela alta sociedade.
Hoje, a cidade como um todo é epicentro do campeonato brasileiro de poker, que conforme reportado pela Poker Stars, contou com quase 1400 participantes da alta sociedade ou não. Se você quer ir a um bar, há vários hoje na cidade. Mas o único grande point na década de 1930 era o bar do hotel São Bento.
Em resumo, o Martinelli foi um microcosmo do que a cidade de São Paulo se tornaria. Tanto por dentro, com suas atrações, quanto formalmente por seu tamanho antes que outros prédios fossem construídos. Daí seu legado. Por mais que tenha passado por um período obscuro, foi revitalizado e hoje está de pé como um marco – não apenas como Giuseppe imaginava, mas como um símbolo do que São Paulo seria hoje.

Fonte:

Vale do Anhangabaú». Wikipédia, a enciclopédia livre. 8 de abril de 2017

Catedral Metropolitana de São Paulo». Wikipédia, a enciclopédia livre. 17 de março de 2017

Copan, Beco do Batman e mais pontos turísticos 'obrigatórios' para visitar em SP - 08/04/2017 - O Melhor de sãopaulo - Folha de S.Paulo». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 14 de abril de 2017.

Omuro, Adriana. «Edifício Martinelli». www.cidadedesaopaulo.com. Consultado em 26 de abril de 2017.

CHAMANI, MARLEI ANTONIO CARRARI (dezembro de 2006). «"Roteiro geológico pelos edifícios e monumentos históricos do centro da cidade de São Paulo."». Revista Brasileira de Geociências 36.4 (2006): 704.

BARROS, RODRIGUES, GISELLY; GONÇALVES, SCABBIA, ANDRÉ LUIZ (25 de novembro de 2015). «A importância dos empreendimentos multifuncionais nas grandes metrópoles»

Zakia, Silvia Amaral Palazzi (2013). «"Edifício Santana, o primeiro arranha-céu de Campinas."». Oculum Ensaios-ISSN 2318-0919 13 (2013). Consultado em 14 de abril de 2017.

Rogério Daflon. Primeiro arranha-céu do Brasil, A Noite passará por obra O Globo, 12 de maio de 2012.

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Edifício Martinelli | Da Redação | VEJA SÃO PAULO». 21 de janeiro de 2014

Cobertura do Edifício Martinelli reabre para visitação após reforma». São Paulo. 26 de julho de 2010

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